O gigante Polifemo

Bom, primeiro resolveram retemperar as forças perdidas após tantos sustos e tanta aflição. […] Depois pegaram num tronco de árvore fina que ali encontraram e afiaram-no muito bem na ponta. Nas cinzas da fogueira tornaram essa ponta incandescente. E então, todos à uma, apontando a ponta ardente na direção do único olho do gigante adormecido, exclamaram UM… DOIS… TRÊS! E espetaram o tronco no olho mesmo a meio da testa!

O ciclope acordou aos urros, e mais furioso ficou quando percebeu que estava cego! Dava pulos tão grandes que batia com a cabeça no teto, batia com a cabeça nas paredes e batia com a cabeça no chão!!! 

Ainda matou alguns homens com esta sua fúria. No meio da noite cerrada, os seus urros e gritos ecoavam de uma forma tremenda. 

Ele atroava os ares: 

– Acudam, meus irmãos! Acudam, meus irmãos! 

Os ciclopes das outras ilhas acordaram estremunhados e disseram uns para os outros: 

– É o Polifemo que está a chamar por nós, e está a pedir socorro. Temos de ir lá ver o que é, temos de lhe acudir! 

E levantaram-se todos, e deitaram-se todos ao mar, e chegaram todos à porta da gruta onde morava o Polifemo. Chegaram escorrendo água e frio e ansiedade. 

Disse um: – Metemos o pedregulho dentro! 

Responderam os outros: – Não, não. Olha que ele pode estar com um dos seus ataques de mau génio e nós é que sofremos. Vamos perguntar o que lhe está acontecendo, e depois veremos. 

E assim fizeram. A conversa que se seguiu foi esta: 

– Ó Polifemo, o que tens? 

– Ai, meus irmãos, acudam-me, acudam-me! 

– O que foi, Polifemo? 

– Ai, meus irmãos, acudam! Ninguém quer matar-me… 

– Pois não, Polifemo, ninguém te quer matar. 

– Não é isso, seus palermas! O que eu estou a dizer é que Ninguém está aqui e Ninguém quer matar-me!

 – Pois é, rapaz! É o que nós estamos a perceber muito bem: ninguém está aqui e ninguém te quer matar… 

– Não é isso, seus idiotas. 

E não havia maneira de se entenderem uns com os outros. Quando os ciclopes perceberam que o Polifemo estava já muito zangado, dizendo sempre aquelas mesmas coisas que eles já tinham ouvido, escorrendo ainda água e frio se foram retirando para as suas cavernas das outras ilhas, comentando entre si: “Ora esta! Que ideia, no meio da noite cerrada acordar-nos assim para nos dizer que ninguém estava lá e ninguém o queria matar… Coitado! Com certeza estava com alguma dor de dentes!”

Maria Alberta Menéres, Ulisses, 39.a ed., Porto, Porto Editora, 2020, pp. 33-37 (texto com supressões)

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